Me apresentando a Vocês
Me apresentando a Vocês
Sou o que escrevo,
mas no momento seguinte
posso não estar mais lá.
Há em mim uma mulher que escreve
e outra que nasce depois de cada palavra.
Ela me revela e, ao mesmo tempo,
me abandona.
Talvez eu exista apenas enquanto
alguma coisa em mim ainda procura um nome,
porque a escrita me fixa no papel justamente
quando a vida já me deslocou.
Quem sabe escrever seja isto:
deixar um rastro de quem fomos
para que outra de nós possa continuar.
Há em mim um lugar que não repousa,
não porque esteja perdido, mas porque nasceu para o movimento.
Sou feita de pedaços que não se repetem e, ainda assim, se reconhecem.
Um fragmento de silêncio, um estilhaço de música,
uma faísca de pergunta que não termina.
Quando penso que sou uma coisa só, algo dentro de mim gira,
explode em fagulhas de arte e eu me torno outra. E outra. E outra ainda.
Não há contradição nisso. Há geografia.
Uma mente que cria e se entusiasma perpetuamente. .
Porque tudo o que me atravessa não me quebra: me reorganiza.
Sou um espelho que aprende a mudar de ângulo sem deixar de ser espelho.
Sou o instante em que ideias diferentes se encontram no escuro
e, sem pedir permissão, decidem criar beleza.
Não sou linha reta. Sou retorno, desvio, espiral.
E, no centro de tudo, não existe um fim.
Existe um olhar. Um olhar que gira devagar,
como quem aprende a ver de novo aquilo que já havia visto.
Se me perguntam o que sou, não respondo com uma forma.
Respondo com um movimento.
E quando tudo parece disperso demais,
quando cada parte de mim parece seguir sozinha,
é justamente aí que acontece um milagre simples:
o mundo gira e eu me encontro.
Não como uma unidade fixa,
mas como uma harmonia viva.
Como um caleidoscópio.
Sempre em movimento.
Sempre me tornando.
Somos luz e estamos aqui.